Reflexões sobre o filme ‘A onda’
O filme alemão de 2008, “A onda”, relata a história de um professor que para ministrar uma aula sobre autocracia, implementa durante uma semana um experimento com os alunos, visando demonstrar-lhes o poder da manipulação das massas e os mecanismos usados pela ditadura.
Como líder,
escolhido pelos alunos, o professor então estabelece regras para a nova
organização criada no experimento. Na sala de aula, os estudantes são
organizados de acordo com suas notas, objetivando trabalhar em equipe para se
nivelarem e se fortalecerem, além de possibilitar o desmanche de pequenos
grupos dentro da organização. Também precisam de permissão para falar e devem
se levantar para se manifestarem. Os membros usam um tipo de uniforme, que eles
assimilam como forma de eliminar as desigualdades, mas por outro lado, anula
suas individualidades. Criam uma saudação, para se cumprimentarem e identificar
os participantes.
Nesse ambiente,
não há competição entre os membros, todos atuam juntos como uma unidade,
criando um círculo de proteção, mas também cancelando suas identidades e se
comprometendo com a organização. Aqueles que não fazem parte desse grupo são
hostilizados.
A sedução
Uma energia
estranha seduziu a todos na sala de aula, extrapolando esses limites, abduzindo
inclusive outros que não participavam do experimento. Da mesma forma, criando
antipatizantes à organização, chamada “A onda”.
Esse projeto
demonstrou como regimes autoritários e outras instituições que obtém controle
sobre seus membros atuam na manipulação das massas, iniciando de forma gradual
e imperceptível, a partir das expectativas da sociedade ou de uma parte dela.
As ações incorporadas em prol da unidade do grupo são tratadas de forma natural
e, com o tempo, tomam grandes proporções.
Mas, como é
possível essa manipulação? No filme, assim como na realidade, nem todos se
rendem à sedução exercida por esse tipo de pertencimento a um grupo com suposto
objetivo comum.
Para ser independente
é preciso liberdade
O filósofo Immanuel Kant, em seu artigo “Resposta à pergunta: que é o Esclarecimento?”afirma que um homem incapaz de se servir de seu próprio entendimento, sem a tutela de
um outro está na menoridade, devido a preguiça e a covardia, que já deveria
estar liberto de toda tutela alheia, mas se satisfaze em permanecer menor e
subordinado a outros. Ele afirma que é difícil para um indivíduo livrar-se
dessa menoridade, pois é cômodo ser assim. Como no filme, apenas poucos
conseguem perceber e pensar por si mesmos. Icônico o fato de serem adolescentes
no filme e de Kant falar da menoridade da consciência. Sair da minoridade é
penoso e perigoso. Para se pensar por si próprio é preciso, segundo Kant,
esclarecimento, usar a razão e para isso é preciso o exercício da liberdade.
A liberdade exige esforço, reflexão e
responsabilidade. Mas, não confunda liberdade com a capacidade de qualquer um
fazer o que quiser – isso é libertinagem. A liberdade aqui dita é a capacidade
de dispor e ordenar suas ações conforme a sanção das leis sob as quais se vive,
sem ter que se subordinar a outro.
Será que somos capazes de ser livres sem que haja
um tutor?
Para o filósofo Thomas Hobbes, sem um soberano os homens não são capazes de utilizar a razão adequadamente, por isso, devem se submeter ao governo de uma entidade maior porque são inconstantes e precisam ser controlados. Sem limites artificiais que impeçam o indivíduo de cair em um estado de selvageria, não haverá paz ou estabilidade. Esse filósofo viveu no século XVII e defendia o modelo absolutista de governo, mas sua teoria ainda poderia justificar organizações como “A onda”. No filme, apesar da implantação de regras e controle, os membros da organização experimental cederam a um estado selvagem, contrariando a teoria de Hobbes, praticando vandalismo e aderindo a uma guerra contra os diferentes, que não usavam o mesmo uniforme e não compartilhavam a ideologia. Isso ocorre nas instituições autocráticas, formais ou informais, não só estatais, mas também religiosas por exemplo.
Uma paixão
pode mudar tudo
Por outro lado, esse mesmo filósofo também relata que
o homem pode tanto divinizar-se quanto bestializar-se e já que os sujeitos são
movidos por paixões, a diferença entre os sujeitos está na qualidade dessas
paixões. O filósofo alerta que o homem nem sempre utiliza da razão para suas ações,
se a usasse não haveria a necessidade do Estado para organizar a convivência
entre eles. Neste sentido, o soberano nunca erra, assim o juízo do monarca
soberano passa a ser o juízo de todos os homens. Refletindo sobre o filme nesse
ponto, o professor seria o soberano, e alguns alunos o viam assim, sendo o seu
próprio juízo. Um outro aluno, movido por uma paixão maior, por sua namorada,
passou então a usar a razão, descartando a necessidade do soberano como seu
juízo.
Apesar da liberdade, sentimos falta de um ideal
Em um primeiro
momento, os alunos não acreditaram que depois de tudo que a humanidade já sabe,
pois conhece a história dos regimes ditatoriais, fosse possível a implantação
de uma organização com essas características. Porém, caíram em sua própria
descrença. No início do filme, vemos o cenário social dos adolescentes:
plenamente livres, consumindo bebidas, baladas, drogas, alta velocidade,
relações superficiais, falta de identidade e de limites. Eles mesmos reclamam
da falta de propósito e compromisso em suas rotinas e se ressentem da falta de
afeto. Nesse contexto, Zigmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, se dedicou
à reflexão sobre a cultura contemporânea. Em sua visão “A vida pós-moderna é
caracterizada por ligações frouxas e compromissos revogáveis, a velocidade é
mais importante que a duração” (2000, p. 61). Na tentativa de encontrar uma
identidade e de fazer parte de um grupo, os homens consomem marcas e moda. A
sociedade se tornou altamente consumista e as forças do mercado consumidor
constituem o mais agressivo mecanismo que ameaça o convívio humano. Nessa
tentativa de “adquirir” uma identidade, a sociedade atual vive uma contínua
insatisfação. O sujeito se move
incessantemente, fazendo e desfazendo devido a impossibilidade de atingir um
contentamento, cuja consumação está sempre no futuro. Os objetivos perdem sua
atração e poder de satisfação no ato de sua realização.
Finalmente, descobri meu grupo
Assim,
exausto da pressão que esse comportamento acarreta, em uma cena do filme, após
a implantação do uniforme da organização criada no experimento, um dos
personagens queima suas roupas de marca, pois agora ele encontrou um grupo
permanente, uma identidade e não precisa mais ficar tentando ser aceito.
Na sociedade
retratada, antes do experimento, os indivíduos não tinham um propósito de
unidade e talvez isso os tenha tornado preza fácil para “A onda”. Apesar de parecer que toda essa “liberdade” é
um cenário excitante, no final o indivíduo percebe que não está livre e que ele
não é ele, se percebe inacabado e incompleto, mesmo que tenha se tornado
alguém. Esse sentimento surge em decorrência da ideia das várias maravilhas que
a vida pode oferecer e a "suspeita de que nada do que já foi testado e
apropriado é duradouro e garantido contra a decadência" (BAUMAN, 2000, p.
74).
Ainda somos
manipulados
Para Bauman (2000)
nessa sociedade moderna faltam padrões, códigos e regras para que o indivíduo
as observe. Os padrões são muitos e entram em conflito, caracterizando sua
liquefação e fluidez, impedindo que mantenham a forma por muito tempo. Apesar
disso, não significa que haja liberdade para que cada um construa seu próprio
modo de vida a partir do zero. Embora possa parecer que a sociedade atual está
livre de controles e manipulações, o sociólogo entende que a desintegração
social atual é uma ferramenta utilizada pela estrutura de poder dominante. Para
possibilitar a fluidez desse poder livremente, o mundo não deve possuir cercas
ou barreiras, tão pouco uma rede densa de laços sociais. A fragilidade dos
laços humanos possibilita a manutenção desses poderes e o desmantelamento das
redes sociais garante sua invencibilidade.
Dependemos da aprovação do outro
O francês Jean-Paul Sartre, considerado um dos maiores pensadores do século XX, alega que o homem vive sob o olhar e o julgamento do outro, em uma condição de estar-no-mundo e não separado dele. Essa condição, de estar inserido em uma relação, em uma coletividade, no mundo faz do indivíduo um ser humano. Nesse contexto, não lhe resta outra saída: deve exercer sua liberdade e aprimorar-se num mundo que está em constante transformação.
Mas, a responsabilidade pela escolha é de cada um
Sartre declara que o homem é livre para escolher;
está condenado a isso e não pode atribuir a responsabilidade das consequências
geradas por suas escolhas a ninguém, além dele mesmo. A tensão gerada pela
liberdade de escolher e a consequente responsabilidade pelas escolhas feitas
resulta em angústia. Mesmo assim, deixar de escolher ou fazer uma escolha
influenciado por outros também é uma forma de escolha.
Para saber escolher, retornemos a Kant que determina
a responsabilidade do indivíduo: “É a si próprio que se deve atribuir essa
minoridade, uma vez que ela não resulta da falta de entendimento, mas da falta
de resolução e de coragem necessárias para utilizar seu entendimento sem a
tutela de outro. Sapere aude! (ouse saber)”.
A ONDA. Direção: Dennis Gansel. Alemanha, 2008. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=zG3TfjAhs30>. Acessado em 10/06/2021.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade
Líquida. Tradução de Plínio Denrzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
2000.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: que é o Esclarecimento? (1784). Trad.: Luiz Paulo Rouanet.
disponível em <http://pt.scribd.com/doc/61427661/KANT-Immanuel-Resposta-a-pergunta-Que-e-Esclarecimento>. Acesso em
15/06/2021.





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