Desabafos da alma


Não sei quantas almas tenho

Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem,

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: «Fui eu?»

Deus sabe, porque o escreveu.


O Buraco


Capítulo 1:

Ando pela rua. 
Há um buraco fundo na calçada.
Caio.
Estou perdido, sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para eu encontrar a saída.

Capítulo 2:

Ando pela mesma rua. 
Há um buraco fundo na calçada, mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar,
mas, não é culpa minha.
Ainda assim, leva um tempão para eu sair.

Capítulo 3:

Ando pela mesma rua. 
Há um buraco fundo na calçada. Vejo que ele ali está.
Ainda assim, caio. É um hábito.
Meus olhos se abrem. Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente. 

Capítulo 4:

Ando pela mesma rua. 

Há um buraco fundo na calçada. 

Dou a volta.

Capítulo 5:

Ando por outra rua. 

Texto: O Livro Tibetano do Viver e do Morrer (Sogyal Rinpoche)

A vida em busca de consciência

Por William Castilho


Iniciamos com a imaginação.

No decorrer da busca vivenciamos a realidade.

Temos um ponto de partida de uma aeronave, em que colocaremos a bordo tudo que achamos necessário para nossa vida: a pessoa amada, os pais, irmãos, amigos, pessoas que fazem parte desta vida, gato, cachorro, plantas, roupas, carro, moto, ferramentas... enfim tudo a que nos apegamos.

Ao perceberem o motor da aeronave ligando, algumas das pessoas que fazem parte de nossa vida, apavoradas descem desta aeronave.

Tenho uma busca e não posso lamentar.

Então alço voo ... Na primeira turbulência amigos pulam de paraquedas...

Não posso lamentar...

Mas, comprometo o voo ...

Preciso descer. Não vejo nenhum lugar seguro ou apropriado para pouso, afinal não estava no plano de voo.

Não tenho escolha a não ser enfrentar os desafios... 

A sensação é de que estou pior do que quando estava ponto de partida.

Há desconfiança e medo da tripulação.

Não posso lamentar, tenho uma missão...

Mesmo com terreno irregular e hostil, consigo elevar a aeronave e voltar ao trajeto da busca...

Ao longo do trajeto observo paisagens lindas, sedutoras, pista de pouso sinalizada com cristais... E toda tripulação se manifesta me dizendo que cheguei ao que buscava...

Passo direto de todos os possíveis paraísos...

A tripulação decepcionada com minha determinação, se rebela.

Nova turbulência, novo pouso: rochas, pedras, espinhos....

Não posso ficar aqui... tenho uma missão, preciso elevar a aeronave...

Ao estar de volta ao trajeto, percebo que estou só, a não ser com a matéria...

Da elevação que alcei não consigo enxergar mais nada a não ser o espaço...

Estou chegando a uma dimensão espacial em que precisei dispensar toda matéria, então somete eu...

Preciso estar leve, a partir daí não sou eu que conduzo, mas o vento.

Avistando uma luz bem a distante: uma estrela? O Sol? A lua?... não sei... mas envolve-me a presença...já não estou só, eu e minh ‘alma, em reflexão.

Eu saio da imaginação e chego à realidade e percebo que desde o início eu já estava   sozinho...

A busca é minha...

Isto, a busca é individual, cada um é o piloto de sua aeronave.

O combustível desta viagem tão somente foi a gratidão e o amor.


Comentários

Postagens mais visitadas