Sem trevas não pode haver luz

 


Uma canção da década de 80 entoava uma afirmação filosófica: “Não existira som se não houvesse o silêncio, não haveria luz se não fosse a escuridão. A vida é mesmo assim: dia e noite, não e sim”.

Essa sentença não expressa apenas uma inspiração artística, embora a arte também seja um instrumento para tentar alcançar o divino, mas apresenta uma questão fundamental para o conhecimento, o entendimento de tudo o que existe. Parece exagero, mas é uma teoria respeitada pelas mais diversas filosofias, desde os primórdios.

O som do universo

Na Grécia antiga, Pitágoras se concentrava na música das esferas, segundo ele, produzida pela harmonia divina e matemática entre o macrocosmo e microcosmo. Conforme essa teoria, há tal harmonia na mecânica celeste que o universo ecoa uma única nota em sua sublime sinfonia.

Porém, o homem não consegue ouvir essa música, porque tem percepção limitada. Teorias afirmam que não é possível descrever e nomear o desconhecido; alguns acreditam que nem conseguimos enxergar ou perceber a presença daquilo que a humanidade atual não pode compreender. Em sua realidade, o homem não consegue alcançar o “Todo”, o “Onipotente”, compreender concretamente o que sejam “311 trilhões de anos” ou até mesmo visualizar “10.000 coisas”.

Somos feitos de silêncio e som

Para auxiliar no entendimento das manifestações do mundo, a humanidade necessita de comparação. As diferenças facilitam apreender as informações, principalmente quando se trata de opostos, pois possibilitam a experenciação mais nítida no mundo material. Só é possível entender o “frio” se conhecemos o “quente”, o “feio” em comparação ao “belo”, o “alto” em comparação com o “baixo” e enfim, o que mais há.

Conforme teorias filosóficas das mais antigas, como o Hermetismo e o Taoísmo, tudo o que existe no universo é dual, têm dois polos: um positivo e um negativo, ou masculino e feminino, claro e escuro. Os orientais nomeiam estas energias de Yin e Yang, duas forças opostas e complementares. Um polo não existe sem o outro.

Essas polaridades permitem ao homem, além de compreender, também criar, manifestar e se colocar no mundo. Conhecer a si e o outro. Segundo o Hermetismo, os opostos não representam coisas diferentes, mas apenas extremos da mesma coisa. Por exemplo, o claro e o escuro são manifestações da luz, assim como o amor e o ódio são diferentes graus de um sentimento.

Yin - Yang

Entretanto, é importante ressaltar que nada é totalmente um polo ou outro, há um balanceamento dos gêneros, tudo tem um componente masculino e um feminino, de acordo com o mesmo Hermetismo, em sua lei do gênero. Também é o que relata o taoísmo que afirma que existe um pequeno Yin dentro de Yang e vice-versa.

Assim, o homem consegue apreender e participar do mundo em que vive percebendo essa dualidade. Sem opostos não há entendimento. Só percebemos que está escuro porque conhecemos a claridade.

Certas coisas

Isso posto, apenas a existência da escuridão permite a luz, sendo as trevas a ausência da luz. Por outro lado, a luz é a ausência das trevas. Isso também se reflete no conhecimento, sendo esse a luz que ilumina as trevas da ignorância. É dessa forma simplória que o homem também tenta entender certas coisas, de forma limitada o “Todo”, o “Uno”, já que não tem a capacidade de ouvir a música das esferas.

Voltando à canção citada no início, depois dessa reflexão é possível confirmar que a arte imita a vida e tenta chegar ao divino, hoje, assim como no princípio da comunicação humana.

Texto de Andréia Hott

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